"It - A Coisa?" (Stephen King).
Resenha e crítica
It é a história de sete amigos Bill Denbrough, Richie Tozier, Stan Uris, Mike Hanlon, Eddie Kapsbrak, Ben Hanscom e Beverly Marsh. Eles formam o Grupo dos Otários, assim batizado por eles, porque são as crianças estranhas da escola, em Derry, cidade do estado do Maine.
Na verdade, essas crianças não têm nada de estranho, mas são vítimas de bullying por alguma característica: Bill (gagueira), Richie (apelidado de boca de feno, ou boca de lixo, dependendo da edição), Stan (judeu), Mike (negro), Eddie (asmático), Ben (gordo) e Beverly (simplesmente por ser uma menina pobre).
A trama inicia com os Otários já adultos e todos morando fora de Derry, exceto Mike que se tornou bibliotecário, inclusive a biblioteca é cenário importante da história. Passaram-se 27 anos desde que os amigos se separaram até que algo de estranho começa a acontecer na cidadezinha. Crianças e jovens começam a desaparecer e, quando encontradas, estão mortas, mas não simplesmente ‘mortas’, elas foram brutalmente ou estranhamente assassinadas.
Mike então telefona para seus amigos e diz que está na hora deles cumprirem a promessa feita por todos há 27 anos. O tempo presente da história é o ano de 1985, então, lá em 1958, o Grupo dos Otários derrotou, ou pensaram ter derrotado, a Coisa e fizeram um pacto de sangue prometendo voltar, caso a Coisa não tivesse morrido.
O que, a princípio, seria uma reunião de sete amigos já começa dando errado quando um deles não retorna a Derry. E quando os seis amigos estão juntos é que vamos saber o que aconteceu em Derry, no ano de 58.
E aí, o legal é que o livro não vira só um tanto de flashback de personagens contando as suas histórias, até porque eles não se recordam perfeitamente do que aconteceu há 27 anos. E mais legal ainda é que não é por falta de memória, mas tem a ver com a Coisa e com Derry. Tanto que a pessoa que tem mais recordações da época é Mike, o único a não deixar a cidade.
No decorrer da história, a gente percebe o quanto essa “amnésia” coletiva tem realmente a ver com a Coisa e, no final do livro, é fantástico como isso retoma. Inclusive, acho que se o livro terminasse exatamente nesse ponto, seria mais fantástico. Mas não vou entrar em detalhes pra não virar spoiler.
O que aconteceu na infância dos protagonistas e que reuniu eles, primeiramente, foi o bullying que eles sofriam, como eu já mencionei. E aí, cabe aqui apresentar o mais babaca dos vilões de It: Henry Bowers. Ele e seus amigos perseguiam os Otários, mas a gente percebe que ele, Henry, vai ficando cada vez mais violento, um lunático mesmo. Mais adiante, eu retorno a esse antagonista.
Porém, há uma sombria coincidência entre os amigos, todos eles são assombrados por alguma coisa sobrenatural, que eles não entendem muito bem o que seja e não compartilham com seus pais ou outros adultos por medo de serem taxados de malucos. Mas, ao compartilhar entre eles, percebem uma certa semelhança nesses eventos sobrenaturais. A principal semelhança é a imensa sensação de medo, pavor e terror despertada por essas aparições, digamos assim.
Em paralelo ao encontro dos Otários, Derry sofre com uma onda de violência e alto índice de morte de crianças, incluindo Georgie, irmão de Bill. O famoso garotinho da capa amarela que corre atrás do barquinho de papel, na chuva.
O Grupo dos Otários, liderado por Bill, começa a ligar os fatos e perceber que seus segredos, os assassinatos e desaparecimentos podem estar relacionados. E aí a gente começa a descobrir que a cada 27 anos, Derry passa por uma ‘catástrofe’ dessas, com assassinatos brutais, mortes estranhas e desaparecimentos de crianças.
Não preciso dizer que a Coisa é quem está por trás disso tudo, não é mesmo? Mas o barato é a gente descobrir o que é a Coisa para cada um dos personagens, como a Coisa se personifica para cada um deles. Enquanto a gente conhece a história da infância dos protagonistas, o presente está rolando, inclusive com a possível volta da Coisa. Então a gente tem duas histórias de embate entre Otários x Coisa. Se a tal Coisa voltou, é porque algo deu errado no passado e os Otários precisam relembrar a história, para que os erros não se repitam. Mas a história vai muito além da batalha do bem contra o mal, a história do Grupo dos Otários é linda e só a amizade deles pode dar fim ao sobrenatural que ocorre em Derry.
Mais de mil páginas? Nem reparei
Uma das coisas que me fazia postergar a leitura de It era, realmente, o tamanho do calhamaço. Como ficar andando pra cima e pra baixo com um livro pesado desses? Até para ler na cama era muito difícil e mesmo assim comprei o livro físico.
O livro já começa com a tensão nas alturas, com mortes, desespero dos personagens, desespero do leitor que nem se ambientou à obra e já fica agoniado com um suspense logo nas primeiras páginas, no primeiro capítulo.
Eu sei que é difícil convencer uma pessoa de que um livro com mil e cem páginas é sim fácil de ler. Mas a primeira dica que dou, então, é para você abrir a mente e não pensar no livro como um objeto que você TEM que ler. Primeiro, não é uma leitura para trabalho, você pode ler no seu tempo, leia 1 hora por dia, 10 páginas por dia. Não veja o livro como um desafio.
Posso afirmar que a leitura de It não é nem um pouco densa, ela é extensa, óbvio, mas não tem nada que dificulte a sua leitura. É uma linguagem simples, bastante descritiva como de costume nos livros de King, porém a narrativa é muito bem estruturada, com até indicações temporais (datas etc) para você não se perder em flashbacks.
A simplicidade da escrita, muito provavelmente, está relacionada por ser uma história sobre crianças, por mais que haja a narrativa dos adultos, a base histórica está na infância dos protagonistas. Apesar das mil páginas, eu confesso que em nenhum momento eu achei que King estava divagando, ou como dizemos “enchendo linguiça”. Cada linha, cada capítulo e tópico é importante para a história, então não existe aquela sensação de perda de tempo.
Uma dica, aí bem pessoal mesmo, de como eu me organizava para a leitura: alguns capítulos são realmente enormes, então às vezes eu não conseguiria terminar um por dia. Mas há os tópicos dentro de cada capítulo. E esses tópicos contavam um trecho importante da história. Então, como eu organizava a minha mente: cada capítulo seria um conto, e os tópicos microcontos que, obviamente, se amarram na história do livro. Essa divisão fazia muito sentido exatamente porque cada tópico era muito importante, então eu tinha para mim que, ao final de cada dia, eu teria lido “várias histórias” e elas iam se completando.
FONTE: It - A Coisa (Stephen King). Resenha e crítica

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